domingo, junho 05, 2011




Irene Serra, editora  de uma das mais prestigiadas revistas digitais -  Rio Total -  exerce a profissão de psicóloga e foniatra.

Com a simpatia que lhe é peculiar, concede uma interessante entrevista à Literacia.


Literacia - Quando e como surgiu a inspiração para o Rio Total?

IS - Há 17 anos, a internet estava iniciando seus primeiros passos mais concretos. O jornalista Luiz Carlos Guedes - nosso editor chefe - ficou entusiasmado com as possibilidades que esta novidade apresentava e abrimos um site que se chamava Catálogo do Rio; era um site de propaganda, visando à divulgação de serviços médicos e que, em aproximadamente um ano, se estendeu a outras áreas.
As pessoas - principalmente o comércio e a indústria - ainda não entendiam bem o que era internet e como ela iria ajudar em seus negócios, sendo que a maioria nem tinha acesso àquela novidade. Muitas vezes, quando íamos fazer uma proposta, confundiam internet com NET, que também estava se consolidando na época.
Dois anos depois resolvemos criar o Rio Total, com o objetivo de divulgar o Rio. À medida que expandíamos, sentimos que não éramos só Rio e começamos a convidar escritores de outros estados e países, que passaram a colaborar com magníficos artigos, fortalecendo cada vez mais o CooJornal, nossa seção de literatura.
A partir daí, já passamos por 8 reformas de lay-out e ampliação de conteúdo. Ganhamos prêmios e destaque em jornais e isso é muito gratificante.


Literacia- Através de seu trabalho muitos escritores são amplamente divulgados.   

IS- Qual o diferencial em meio a tantos sites literários?
Talvez a maior diferença seja o fato de termos registro no ISSN, o que dá certa segurança aos escritores na preservação de seus direitos autorais. Outro diferencial é a preocupação com a revisão de textos de todo o material publicado, principalmente dos artigos, contos e crônicas. Não usamos aquele sistema em que autores postam o que querem a qualquer hora. Selecionamos alguns e os editamos, atualizando o site às sextas-feiras.


Literacia- Pode nos falar como é elaborada a revista e quantos fazem parte da equipe com as referidas funções?

IS- Nossa edição é semanal, portanto, não precisamos de muitas pessoas para a elaboração do site. São só dois editores e média de 15 colaboradores que enviam seus textos. (Ah, como gostaríamos que os enviassem com mais antecedência!). Recebemos sugestões de matérias e releases de uma rede de jornalistas e assessorias de imprensa, além de fazermos muita pesquisa durante a semana. Tudo é analisado e escolhido até quarta-feira. Aí, é madrugada a dentro para estar no ar na sexta logo cedo.


Literacia- Sente-se realizada como editora, ou tem planos para ampliar seu projeto?

IS- Planos, sonhos e desejos existem. O problema é ter tempo e disponibilidade financeira para colocá-los na prática. Só o fato de estarmos há 17 anos ininterruptos com o site no ar, sem nenhum patrocínio efetivo, já é uma realização. Mas o maior sonho é, sem dúvida, lançar a versão impressa do Rio Total.


Literacia- Como concilia seu tempo atuando como psicóloga, foniatra e editora cultural?

IS -Agora já estou aposentada do consultório e me dedico integralmente ao site. Mas há alguns anos era bem complicado. Após a tensa labuta do dia, trabalhava no site do final da tarde até de noite. Luiz dava aulas na faculdade e, quando voltou ao rádio, tive de assumir o site com mais intensidade. Mas fazíamos com prazer. Hoje, ainda é a mesma sensação de descoberta e alegria, o mesmo prazer. Nem sei qual a época melhor.


Literacia- Sabemos que é também escritora. Fale um pouco sobre esse dom.

IS -Não me considero uma escritora! Sempre gostei e tive facilidade em escrever, tanto que meu pai achava que eu devia seguir a carreira de jornalista. Eu, ainda muito imatura e jovem, apesar do apoio paterno, queria ser da “geração de psicólogos”. Escrevo o que sinto e como sinto. O Luiz diz que meus textos agradam porque não têm a fria linguagem jornalística, têm a linguagem da alma e do coração. Fico sempre na dúvida se é por este viés mesmo ou se ele está apenas querendo me agradar para que eu continue fazendo o site...


Literacia- Como vê o avanço dos livros digitais?

IS -Como disse Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, não contem com o fim do livro. Há coisas que não podem ser substituídas depois de inventadas. A roda, por exemplo. Roda é roda até hoje no mesmo formato de quando foi inventada. Foram melhoradas tecnicamente, mas seu formato original é o mesmo. A tecnologia digital vai facilitar em muitas situações, mas não vai substituir o livro de papel. O formato digital de hoje não será mais o formato digital de amanhã. A velocidade com que as tecnologias se desenvolvem é muito rápida, o que se usa hoje não serve mais amanhã. Para se preservar o que tinha, tem de se substituir pela nova tecnologia, tem de gastar mais uma vez para se manter atualizado. E se der um vírus no computador, adeus biblioteca. Já o livro de papel não. Está ali na estante, velho, amarelado, mas está ali a seu dispor a qualquer hora.
E eu não preciso de energia para ler, posso fazê-lo a qualquer momento, até mesmo sob uma vela.


Literacia- É difícil para um escritor lançar-se no mercado editorial?

IS -É. As editoras recebem centenas de originais diariamente. Têm de ler, classificar por publico alvo, ver a viabilidade econômica e comercial, etc. Não é só imprimir e colocar nas livrarias. Alguém tem de pagar a conta. Se não for uma boa estória que dê para investir em uma ampla divulgação, não serve.
Uma dica para os escritores: as editoras não lêem o original todo na primeira análise. Se os dois primeiros capítulos já derem ao editor a noção completa do enredo e seu final óbvio, é colocado no arquivo do "um dia talvez" ou no "muito interessante, mas no momento estamos sem condições de publicar". Para que o livro tenha alguma possibilidade de ser publicado, a trama tem de ser interessante, intrigante e provocativa, deixando o leitor com muitas dúvidas quanto à ação de seus personagens. Cada capítulo deve levar o leitor a querer ler o próximo, e o próximo, e o próximo. Parodiando o ditado popular, "você tem de matar um leão a cada capítulo".
Hoje em dia, o livro não deve ter uma narrativa muito longa e detalhada do ambiente em que passa cada episódio. Os diálogos têm de ser coloquiais e objetivos. Não podemos esquecer que os leitores de hoje estão envolvidos em um mundo de muita agitação e informação. A TV tem o recurso da imagem, que em poucos segundos dá a idéia do ambiente, e os diálogos são curtos. Nos filmes acontece a mesma coisa, pois conseguem contar a história da vida de um ‘Alexandre, o Grande’, por exemplo, em 3 horas de duração. O público já se acostumou com isso, não tem mais paciência para livros dissertativos de 500 ou 600 páginas. Este tipo de livro se compatibiliza bem no segmento acadêmico.
O importante é lembrar que um bom escritor deve ser primeiro um bom leitor.


Literacia- Falta aos nossos governantes sensibilidade para a promoção da cultura?

I S- Acho que não. Há leis de incentivo cultural e diversos estados promovem as várias vertentes da cultura gratuitamente para o público. Talvez, o que falte, seja maior facilidade e agilidade na análise dos projetos, diminuir algumas exigências desnecessárias e aumentar um pouco mais os benefícios de quem patrocina, a fim de atingir empresas de médio porte.
Acho que a falta de sensibilidade maior é de quem faz o projeto para ser beneficiado com as leis de incentivo, não conhecendo profundamente todas as possibilidades que elas oferecem; além do que, não sabem vender esse projeto aos seus mecenas. A estes também falta sensibilidade e desconhecimento dos benefícios que estas leis trazem. Tanto no que se refere à questão fiscal, à questão de sua imagem perante a sociedade, e também - e esta a mais importante - nos benefícios sociais que a cultura leva ao seu público consumidor. Infelizmente, a mentalidade do mecenas de hoje é o retorno rápido do seu investimento. A doação com o simples objetivo de ajudar a melhorar culturalmente seu próximo não existe. 


Literacia- Se tivesse poderes, o que faria em prol da cultura?

IS -Eu poderia dizer que é revitalizar, manter, promover e até criar novos museus, salas de cinema, salas de exposições e arte, bibliotecas, teatros, etc. Mas nada disso adianta se não há público com capacidade intelectual para isso. Então, o melhor para cultura é a educação e começando pela básica. Eu criaria uma disciplina obrigatória do curso elementar ao superior: cultura.
Assim, alguns deixariam de achar que cultura é saber ler, escrever, fazer as 4 operações e ter lampejos de algum fato histórico, além, evidentemente, de saber contar o final da última novela...


Deixe-nos um poema de sua autoria.

AQUARELA

[Tela-Jean Paulo Lopes]
Ouvi dizer que, no alto desta serra,
Vive um pintor que é renomado artista.
Lá o vejo no trabalho, sobre a crista
De um desnudo rochedo à flor da terra.

O tom cinzento do painel contrista.
Rasga-o nervoso, reconhece que erra
E, enquanto os olhos molemente cerra,
Espera a inspiração vaga e imprevista.

Finalmente, o pintor descobre a tinta,
Experimenta, delicia, pinta
E abre um sorriso ao ver de longe a tela.

Como tu, meu amor, que principias
A pôr no quadro inútil dos meus dias
Um céu azul de pálida aquarela.

Irene Serra




quinta-feira, maio 05, 2011


Belvedere Bruno entrevista Nilto Maciel


Literacia - Como você vê o atual cenário literário  do país?
NM – Se a literatura nasce dos livros e da leitura, a utilização de livros e leitura se inicia na escola. Portanto, para que uma literatura se faça, é necessário que a escola exista e seja boa. No Brasil, a escola não conduz o aluno ao livro, à leitura. A maioria dos estudantes não sabe ler ou não tem o hábito de ler. O que salva a literatura brasileira é a lei natural que faz com que um menino ou menina se dedique a ler, tome gosto pelos livros e chegue a também escrever. É o caso de Machado de Assis, Lima Barreto e tantos outros escritores de origem pobre. A literatura é a irmã desprezada da família das artes. Aquela que os pais desprezam, os padrastos rejeitam, os vizinhos escorraçam, a polícia prende e machuca, os homens no poder chamam de loucos. Tirante um ou outro Paulo Coelho, não há um só escritor brasileiro que consiga se alimentar uma vez por dia, se depender da venda de seus livros. Todo escritor tem uma profissão: médico, advogado, funcionário público, bancário, etc. Apesar disso, temos tido ótimos escritores, que podem ser postos ao lado dos grandes do mundo. Talvez não tenhamos nenhum do tamanho de Camões, Dante e Shakespeare. Com o surgimento da Internet, este quadro tende a melhorar. O estímulo a ler e escrever é muito maior hoje. Assim como a publicar.
        
Literacia  - Lembra de seu primeiro instante poético?

NM – Meus primeiros passos na leitura de poesia se deu na escola. Não no curso primário (primeiro grau), mas no secundário (antigo ginásio, equivalente hoje ao período que vai do sexto ao nono ano). Os livros de português traziam trechos de romances, contos e poemas. Os mais curtos, como sonetos, vinham na íntegra. Decorei diversos deles, como “Última flor do Lácio, inculta e bela, / és, a um tempo, esplendor e sepultura: / ouro nativo, que na ganga impura / a bruta mina entre os cascalhos vela...”. A cada aula se estudava um daqueles textos, quase sempre de clássicos: do arcadismo até o início do modernismo. Cedo me apaixonei por eles. Lia-os com muito prazer. Além disso, dois de meus irmãos (Amadeu, rapaz, e Ailton, adolescente) também escreviam poemas. E eu passei a imitá-los. Da imitação passei à criação.

Literacia - Na atual enxurrada de lançamentos literários, há precipitação por parte do autor, já que nem sempre a qualidade está presente? 

NM – É natural a precipitação no escritor jovem. Coisa da idade. A gente só percebe a imaturidade quando se torna maduro. Ou seja, ninguém se vê imaturo. Há e sempre houve bons escritores jovens. Os exemplos são muitos: Castro Alves, Álvares de Azevedo, Rimbaud. A maioria, porém, é aprendiz mesmo ou nunca passará disso.

Literacia - A poesia  tem lugar nos dias atuais?

NM – Poesia (arte literária) não é para muitos. A literatura, em suas variadas formas, também não é. Se romance é o gênero mais lido, não quer dizer que sejam os romances os melhores livros. Os poetas são raríssimos, os leitores de poesia são poucos. Não sei se mudará par melhor. Talvez mude para pior: quando tivermos vinte bilhões de seres humanos, teremos cem poetas e cem leitores de poesia.

Literacia - Fale sobre  o seu processo criativo.

NM – Parece-me que a criação literária se faz num processo lento, em cada escritor. Semelhante ao da formação do solo. Camadas e camadas de areia, metais, húmus, vão se acumulando, ao longo do tempo.  É a acumulação da memória. Dela surge a obra de arte. Por outro ângulo, não sei como surge em mim a idéia primeira de uma obra. Só sei que vem da memória (leituras, músicas, pinturas, falas, gestos, atos, etc). Ocorre um estalo, como um sismo no solo mental. Sinto o abalo, assusto-me e espero a calmaria. Desligo-me da realidade num instante (não por querer, mas por imposição daquela síncope - fragmentação dos sentidos, corte abrupto no roteiro real) e me sinto possuído por uma nota musical, uma palavra, uma frase, um gesto, um olhar, uma luz - como numa descarga eletromagnética – e sou impelido a criar, a escrever. Nem sempre escrevo logo aquilo. Desligado da realidade (pode ser durante um almoço, no decorrer de uma festa, num cinema, no meio da multidão, na solidão da latrina, na cama (durante o ato sexual também), abato-me, desprego-me do meu chão (nem suponho o que se passa ao meu redor) e voo por universos estranhos (mas não tão estranhos, pois estão na memória). O conto ou o poema ou a crônica ou seja o que for se forma, lentamente. Ás vezes de uma só vez (como um ser que nascesse pronto em um minuto, logo após o coito). Anotado, vira poema, conto, crônica, etc. Nos dias seguintes, sofrerá arranjos (não de conteúdo, mas de forma).   

Literacia - Como se vê, sendo apontado como um dos grandes nomes na literatura nacional?

NM – Alguns leitores (raríssimos) de meus contos, poemas, romances e crônicas me chamam de bom escritor. Consciente que sou de minhas limitações e das de outros escritores, vejo-me como um bom escritor em formação. Ou seja, não fui precoce, não serei gênio.


Literacia - O Ceará é terra fértil em bons escritores. O governo contribui de alguma forma  com eles e para  a vida cultural na cidade?
NM – Os escritores sempre estiveram próximos dos poderosos. O Estado é necessário em todos os sentidos. Para patrocinar publicação, divulgação, leitura, etc, é mais necessário ainda.

Literacia - Que tipo de trabalho  você elabora no momento ?

NM – Estou sempre em efervescência, como um vulcão. Ando, paro, leio, penso, durmo, sonho, sempre em ebulição mental. Esboços de contos e crônicas surgem de vez em quando. Nem tudo anoto ou levo adiante. Agora tenho esboçado um conto (recriação de um conto que perdi há anos): Escrito, em primeira pessoa, por um cientista, como base para o relatório que deverá apresentar à comissão científica de que faz parte. Relata (sua estupefação, sua alegria, sua reação diante de cada descoberta) os trinta dias de convivência de duas famílias numa mansão. Famílias de idêntica conformação: pai e mãe de cerca de 40 anos cada, filho e filha adolescentes, duas filhas e dois filhos crianças. Além disso, há alguns meses elaboro um romance. Tenho 17 pequenos capítulos prontos. Só o início.
  

Literacia  - Já pensou  em ver um conto seu encenado em palco ou filmado?
NM – Um de meus romances, O cabra que virou bode, foi transfigurado para a tela (curta). Em palcos de escolas, alguns contos foram dramatizados.  Tenho dois poemas dramáticos (autos) publicados apenas na Internet e nunca encenados. Um é fantástico (estátuas que adquirem vida) e outro histórico-social (padre Cícero e seu boi santo).

Literacia - Há algum tema recorrente em sua escrita?

NM – Parece-me que os temas da solidão e da velhice, da saudade da infância, da perda (morte, principalmente), do sexo fora do casamento, da miséria social (poderosos e oprimidos) são os mais frequentes em minha obra.


Literacia - O que  diria  para aqueles que desejam se iniciar na vida literária?

NM – Façam mais do que fiz: leiam muito desde cedo, escrevam muito (como exercício), mas não se matem de desgosto, se não chegarem perto de Fernando Pessoa, Machado de Assis e Kafka.


NILTO MACIEL nasceu em Baturité, Ceará, em 30 de janeiro de 1945. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 77 e regressou a Fortaleza em 2002. Edita a revista Literatura desde 91.
Ganhou alguns prêmios literários: “Brasília de Literatura”, 90, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo; “Cruz e Sousa”, 96, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica; “Bolsa Brasília de Produção Literária”, 98, categoria conto, com Pescoço de Girafa na Poeira; "Eça de Queiroz", 99, categoria novela, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, com Vasto Abismo.
 

sábado, fevereiro 05, 2011


Belvedere Bruno entrevista Affonso Romano de Sant' Anna

"Como viajei a dezenas de países relato também o que vi no que diz respeito ao livro, leitura e bibiotecas"
        Dentro de poucas semanas estará nas livrarias o livro LER O MUNDO de Affonso Romano de Sant' Anna. O tema central é a "LEITURA .e como ele o diz,  essa obra está disposta   em três niveis: tanto crônicas que relatam a sua vivência na área da leitura , como ensaios e aulas magnas mais teóricas  e, finalmente, um depoimento onde ele conta coisas que o público precisa saber sobre os 6 anos heróicos que passou na Biblioteca Nacional.

Literacia - Três livros num só?
A.R - Exatamente. E em niveis diversos. Nas crônicas, sempre mais palatáveis o leitor encontrará o panorama de coisas importantes que ocorreram na área da leitura nos últimos 20 anos, seja em Passo Fundo e Morro Reuter, seja no Ceará e no Acre.  Como viajei a dezenas de países relato também o que vi no que diz respeito ao livro, leitura e bibiotecas. Ou seja da nova biblioteca de Alexandria, para a qual contribui, até a biblioteca de Mulungu, na Paraiba, há coisas curiosas a serem contadas.

Literacia  - E  os ensaios?
A.R.-Volta e meia me chamavam para "aula magna","aula inaugural" aqui e ali e tinha então oportunidade de historiar a questão da leitura dentro e fora do país. O fato de ter me metido na administração pública por seis anos, me fez conhecer o outro lado da questão até mesmo internacionalmente, pois a Biblioteca Nacional do meu tempo, tinha como tarefa criar e gerir uma política nacional e internacional do livro. Conseguimos que o Brasil fosse tema da Feira de Frankfurt, do Salão do Livro de Paris, etc.

Literacia - Que gosto ou lembrança ficou desse tempo na BN?
A.R-.É como "serviço militar",  a gente só faz uma vez. Consegui reunir uma geração de alucinados que implantou  dentro e fora do pais uma nova mentalidade no que diz respeito ao livro, a leitura e as bibliotecas. A questão do livro/leitura/biblioteca nunca mais foi a mesma depois que criamos o Proler o Sistema Nacional de Bibliotecas.

Literacia - Como era a Biblioteca Nacional quando você lá chegou?
A.R.- Conto isto na última parte do livro. Era um caos. Tivemos que recomeçar do zero. Reformamos o prédio, conseguimos novos prédios para a BN, modernizamos a informática e os funcionários nunca receberam tantos " atrasados" como nesse tempo. A frequência aumentou de tal maneira que havia filas na porta da instituição. E a BN virou um "point" e, em poucos anos, foi eleita como a instituição federal que melhor funcionava no Rio.

Literacia  -  A sua saida foi  um trauma, conte algo.
A.R.- Está narrado lá, com documentos. Tem até carta do Saramago se solidarizando e dando um puxão de orelhas no Fernando Henrique, que aliás não tinha a menor idéia do que seu ministro da cultura fazia. Até hoje, dezesseis anos depois que saí, encontro gente me parando na rua indagando e se referindo àquele período. Isto já virou história. Há várias teses escritas a respeito e eu não poderia deixar de dar o meu depoimento.


Literacia .- Uma curiosidade como conseguiu tempo[para]  e porque  resolveu ser Colunista de Literacia?
A.R.- Diante de certas causas, a gente sempre arranja tempo.  Conheço o trabalho de Ana Merij há tempo. Ela tem essa capacidade de liderança e de  juntar diversas pessoas. Além do mais   esse entrelaçamentos de nossas culturas que LITERACIA propõe é estimulante. Sempre batalhei por isto. E a internet pode fazer o que não foi feito durante esses 500 anos passados.


[Belvedere Bruno é escritora, jornalista e articulista de Literacia ]

sábado, dezembro 04, 2010

Belvedere Bruno entrevista Artur da Távola

[in memoriam]

Quando convidada a entrevistar Artur da Távola, senti grande satisfação, principalmente pela oportunidade de mostrar na internet este exemplo de homem público .Advogado, jornalista, radialista, escritor e professor, Artur da Távola sempre teve postura ética admirável, obtendo, assim, o respeito de todos que acompanham sua brilhante trajetória.


1 -As gerações mais novas não conhecem sua história. Partindo de sua eleição como deputado constituinte em 1960, aos 24 anos, poderia nos dizer como isso influenciou a sua vida?
Deveras! Sempre me dividi entre o político e o escritor em um País com larga faixa de injustiça social. Sofri com essa divisão e sofro até hoje mas para sintetizar, sinto a política como dever (que cumpri) e a literatura como vocação, atrás da qual vivo a correr sem a alcançar em plenitude, jamais.

2- Quando e como Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros tornou-se Artur da Távola?
Foi durante a ditadura. Voltando prematuramente do exílio, estava já de volta, quando estourou o golpe dentro do golpe, em 1968. O Diretor do jornal no qual trabalhava (Samuel Wainer, também cassado politicamente) aconselhou-me a não mais assinar as matérias com meu nome, Paulo Alberto e encontrar um pseudônimo. No mesmo instante veio-me à mente, como já estivesse decidido havia milênios (embora jamais houvesse pensado nisso) o nome Artur da Távola que grudou tanto em mim que hoje é heterônimo e não mais pseudônimo.

3 - Qual a grande lição obtida através de seu exílio?
Aprofundar o meu conceito de democracia que me fez sair de um socialismo um tanto ingênuo e penetrar na social-democracia. O outro sentido foi o de verificar o quanto amo este País. E o terceiro foi aprender o significado real da palavra saudade.

4-O senhor atuou no jornalismo televisivo por quase vinte anos. Como era o processo na época e como vê a televisão nos dias atuais?
A televisão é uma caixa de contrastes. Na parte noticiosa cada vez melhor como amplitude de cobertura embora a trocar notícia como informação por notícia como espetáculo ou entretenimento. Aliás vivemos a era do entretenimento e do espetáculo. Cada vez é menor o espaço para o debate de idéias. Inclusive na política. Na parte de teledramaturgia é bastante desenvolvida. Fraca na programação infantil e nos canais de baixa audiência é uma lamentável exploração do grotesco e de anormal.

5--Sua carreira como cronista em diversos jornais tem sido rica em termos de produção. Poderia nos dizer quantas crônicas já escreveu?
Cerca de sete mil. Fiz esta conta pelos anos e não uma a uma. Adoro a crônica como gênero literário e seus não-limites.

6 - Quantos livros já publicou? Por que sendo um autor tão querido, há tanto tempo não vemos um lançamento seu?
Vinte e dois impressos, e um "e-livro" recentemente lançado. Os 16 anos de parlamento e a política atrapalharam a minha literatura e as editoras de meus livros mais recentes os distribuíram muito mal. Livro mal distribuído é livro que não se lê. Por isso tenho me voltado para a Internet. Pode não ter repercussão intelectual, mas se dissemina, chega aos jovens e fica para o futuro como ato de gratuidade como o é a vocação de escrever. Mas de todos modos, livro é sempre livro. Estou com quatro prontos e ainda não procurei editor.

7- Sendo o rádio uma de suas paixões, pode nos falar sobre os programas que apresenta direcionados a música clássica?
Rádio é literatura oral que pode ser da melhor qualidade. Amo o rádio. Escrevo programas de música erudita e de música popular. E eu mesmo os
apresento pois comecei a trabalhar em rádio há 49 anos, tenho prática de narração e minha voz não é feia. Posso dizer que conheço o ofício. E ademais levar música ao próximo é levar o bem, a universalidade, a paz, o consolo, a cultura, Vou arriscar um possível absurdo: o rádio, isto é o áudio, é a mídia não do passado mas do futuro a partir da miniaturização e da nanotecnologia.

8 - Tem algum projeto literário em andamento?
Vários. O que me falta é tempo para impulsionar pelo menos cinco desses projetos, pois tenho que trabalhar para o sustento de minha família. Em 2004 fez 50 anos que trabalho. Deu-me isso motivo para fundo agradecimento ao Mistério que nos guia por meio de insondáveis mas perceptíveis desígnios, e uma felicidade interior que me faz, bem, ilumina e dá disposição.

9 -Na sua opinião, qual é o legado de sua geração?
Lutar pela democracia no Brasil. Acho que vencemos.

10 - Deixe uma mensagem aos leitores.
Não peça opiniões acerca do que escreve. A angústia sobre o próprio trabalho é a matéria prima do mesmo. Só ela o impulsiona. Consultar é desorientar a bússola do "si mesmo" (o "self" Junguiano), essa instância única e original que levamos dentro. Em vez de consultar alguém sobre o seu valor, leia, leia muito. Aprenderá por si mesmo, conseguindo assim ter um estilo, que é, de tudo, o mais difícil. Sugiro também fugir dos adjetivos, dos chavões e do excesso de "que" e de "eu" nos textos.


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Em torno da saudade



A Artur da Távola - in memoriam

Belvedere Bruno

Naquele estado entre a vigília e o sono, entrevi  seu sorriso, e senti-me envolvida por um suave estremecer. Pensei que seria bom enviar-lhe meu último conto, O homem e as flores. Não havia, não sei por que motivo,partilhado com ele a emoção daquele texto curto e um tanto inusitado. Sabia, no entanto, que ele teria gostado. Saindo daquele estranho torpor, despertei. Vi-me, então, frente à realidade, e   uma tristeza indescritível tomou conta de mim.  Nunca mais  ele voltaria a ler, a comentar meus textos,
a fazer sugestões e a trocar idéias sobre eles. Era uma amizade   sincera , que sempre prescindira de comentários e alaridos  em torno dela. Não fui pega de surpresa com sua partida. Nos últimos tempos, havia silêncio. Mensagens  monossilábicas me soavam como ritos de despedida.É difícil preparar-se para um desfecho triste. Dói. Mas nada se  compara à dor da certeza de que tudo realmente  acabou.
Deixei que o tempo passasse,  e agora , aquietada , posso  falar sobre a falta que ele  me  faz.
Dizem que ninguém é insubstituível. Discordo, já que todos são diferentes, têm as suas particularidades: uns, quase perfeitos, e outros, adoráveis por seus defeitos.
 Tive a  grata oportunidade de entrevistar Artur da Távola no ano de 2005, e marcou-me, de forma indelével, a resposta que dera em relação à grande lição obtida através de seu exílio. Transcrevo suas palavras:
"Aprofundar o meu conceito de democracia, que me fez sair de um socialismo um tanto ingênuo e penetrar na social-democracia. O outro sentido foi o de verificar o quanto amo este país. E o terceiro, foi aprender o significado real da palavra saudade..."
Nunca haverá quem preencha o vazio que ele  deixou em minha vida. Guardarei na memória seu constante  incentivo  às minhas letras, sua  generosidade e suas ponderações, que sempre  me serviram como  verdadeiras diretrizes  de segurança.
  Que  sons  sublimes acompanhem seu  vôo, juntando-se  às  amorosas vibrações de todos os que mereceram a amizade, a atenção e a confiança desse ser humano ímpar.
  Quisera poder, como o personagem Marcos, do conto O homem e as flores, derramar lágrimas perfumadas para o meu  querido amigo que se foi.

                                                ****

Artur da Távola, o pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros, (Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 1936 — Rio de Janeiro, 9 de maio de 2008) foi um advogado, jornalista, radialista, escritor, professor e político brasileiro.
Iniciou sua vida política em 1960, no PTN, pelo estado da Guanabara. Dois anos depois, elegeu-se deputado constituinte pelo PTB. Cassado pela ditadura militar, viveu na Bolívia e no Chile entre 1964 e 1968. Tornou-se um dos fundadores do PSDB e o líder da bancada tucana na assembléia constituinte de 1988, quando defendeu alterações nas concessões de emissoras de televisão para permitir que fossem criados canais vinculados à sociedade civil. No mesmo ano, concorreu, sem sucesso, à prefeitura do Rio de Janeiro. Posteriormente, foi presidente do PSDB entre 1995 e 1997. Exerceu mandatos de deputado federal de 1987 a 1995 e senador de 1995 a 2003. Em 2001, foi por nove meses secretário da Cultura na cidade do Rio.
Como jornalista, atuou como redator e editor em diversas revistas, notavelmente na Bloch Editores e foi colunista de televisão nos jornais Última Hora[2], O Globo e O Dia, sendo também diretor da Rádio Roquette Pinto. Publicou ao todo 23 livros de contos e crônicas.
Távola apresentava o programa Quem tem medo de música clássica?, na TV Senado onde demonstrava sua profunda paixão e conhecimento por música clássica e erudita. No encerramento de cada programa, ele marcou seus telespectadores com uma de suas mais célebres frases:
Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.
Seu compositor preferido era Vivaldi, a quem dedicou quatro programas especiais apresentando Le quattro stagioni em sua versão completa e executada pela Orquestra Filarmônica de Berlim. Também exibiu com exclusividade execuções da Orquestra Sinfônica Brasileira no Festival de Gramado nos anos de 2003 a 2007. Era apresentador de um programa sobre música na Rádio MEC.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Belvedere Bruno entrevista Ricardo Augusto dos Anjos




[Neto de Augusto dos Anjos]

Quando o conheci, Ricardo Augusto dos Anjos morava na Vila Pereira Carneiro, em Niterói/RJ. Nessa vila, nasci e vivi boa parte da infância e adolescência. O lugar ainda conserva seu bucolismo, que nos traz inspiração e nos remete à poesia. Anos depois, reencontrei Ricardo pelos caminhos do jornal Lig. Quis o destino que ele buscasse outros rumos e, atualmente, os ares serranos e a calmaria fazem parte do seu cotidiano. E nessa troca de idéias, cresço, ao mesmo tempo que me encanto com a sua generosidade.


Belvedere Bruno: Pode descrever seu primeiro instante poético?

Ricardo dos Anjos - Adolescente, achava-me apaixonadíssimo, e cheio de compaixão, não sabia bem por quem, e então idealizei, inventei uma namorada de condição humilde e a nomeei Aline, um nome que pra mim soava delicado, pianíssimo. E cometi um poema em homenagem a ela, virtual. Hoje, na modernidade, o virtual está lá longe, do outro lado do mundo ou do seu próprio mundo, mas sentado à frente de um computador... e o amor chega pelas fibras ópticas.



BB: Ainda se lembra do poema?

RA: Ora, como não? Ei-lo: “Aline surgiu entre os humildes que entoavam uma canção/
Olhos ternos e tensos multiplicavam-se na tarde/Não se distinguiam as crianças dos criminosos na diluição ébria da taberna/Aline de cabelos longos/Sugeria uma flor à beira do abismo”.



BB: Como elabora seus poemas?

RA: Não sou poeta profissional, confio muito na inspiração. Alguma transpiração. Sou um poeta passional. Logo, mais retina interior que rotina exterior. Construção? Trabalho com ruínas emocionais, parto da desconstrução para a construção, que posso chamar de discurso analítico. Sem sigilo, pois a vida não é um crime perfeito, como diria Cláudio Mello e Souza, outro poeta, vivo, que admiro.



BB: No início, teve influência de algum poeta?

RA: Quem faz poesia sempre tem, sofre influências. Li muito Fernando Pessoa, Augusto Frederico Schmidt, Vinícius, Traduções de Walt Whitman, e poetas “femininos” como Hilda Hilst, Marly de Oliveira e Cecília Meireles, Florbela Espanca. E me tornei poeta lírico. Mais tarde, curti os poetas neoconcretos do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, tendo ensaiado alguns poemas do gênero, procurando uma contenção verbal. Logo após, voltei ao discursivo, porém mais contido.



BB: Qual o papel do poema dentro da realidade em que vivemos?

RA: Ultimamente, a realidade em que vivemos é que está dentro dos poemas. O poeta hoje não pode nem deve se esquivar do atual contexto, simplesmente porque faz parte dele. Aquele poeta nefelibata não mais existe ou não deveria.



BB: Os livros de poemas estão em baixa?

RA: Sei lá! Só sei que o público que compra poesia é restrito e peculiar. E quem gosta de ler, muitas vezes não tem poder aquisitivo para tal, e recorre às bibliotecas. Saber se os livros de poesia estão em baixa ou em alta é trabalho para os ibopes da vida.



BB: Qual sua opinião sobre a comercialização de poemas em CD e DVD?

RA: Estamos no século XXI. Temos a tecnologia audiovisual ao nosso alcance. Quem pode, aproveite e edite, grave, sem culpa de que assim o livro vá morrer. O livro não morrerá tão cedo porque Gutenberg ainda não morreu.



BB: Já experimentou a falada "secura de letras"?

RA: Claro, qual poeta não experimentou bloqueio criativo? Não sou máquina de produzir livros como o Paulo Coelho. Não sou escritor profissional. Sou um poeta bissexto. De mais a mais, uma pausa sempre refresca a mente que, nesse interregno, deve absorver o mundo em movimento e tentar expressar algo novo que possa contribuir para o fim da mesmice.



BB: Nos últimos anos observou alguma inovação poética em nosso país?

RA: Voto no meu amigo Marcus Accioly, pernambucano, de quem João Cabral de Mello Neto disse ser “um poeta de primeira categoria”. Drummond também reconheceu em Marcus “uma poesia tão rica e universal”. Suas obras Nordestinados, Sísifo, Narciso e outras fazem dele um dos mais criativos e fascinantes poetas da atualidade. “Érato”, por exemplo, é uma reunião de poemas com temática erótico-amorosa, composto de sonetos, muitos completados com um “soneto invertido” (à semelhança do que acontece em Narciso). Além dos 69 poemas, há ainda uma Ode ao Vinho, composta em variados metros e estrofes. Como em Nordestinados, há um poema para cada letra do título completo do livro (Érato: 69 poemas eróticos e uma ode ao vinho).



BB: Para que serve o poema?

RA: Serve para repassar aos leitores os sentimentos, a capacidade criativa do poeta no trato com as palavras.



BB: Cite alguns poetas que tenham te impressionado.

RA: Impressionado positivamente elenco meu avô Augusto dos Anjos, Esra Pound, T.S.Elliot, e aqueles que citei e dos quais recebi alguma influência.



BB: O que existe de pior num poema?

RA: É muito subjetivo. O que é pior pra mim talvez seja melhor para você, e vice-versa. Gosto não se discute. Quem discute são os críticos. E na comunidade literária eles têm poder, na mídia, de descobrir, erguer e derrubar um poeta, um romancista, um cronista, um contista, um ensaísta, e até mesmo um crítico igual a eles.



BB: Hoje em dia muitos se dizem poetas. O que é ser poeta, afinal?

RA: Como diz Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E muitos que se julgam poetas também são fingidores, mas no pior sentido. São enganadores, uma fraude. Fingem que são poetas, porém não são poetas deveras. Cabe aos leitores e críticos desmascará-los.



BB: Algum recado para os leitores?

RA: Leitor é aquele que lê. Então leiam, nas linhas e nas entrelinhas; examinem tudo o que for possível em matéria de literatura disponível, e retenham o bem, ou um bem... Relativo ou absoluto.


Ricardo Augusto dos Anjos, 71 anos, é poeta, jornalista e redator de publicidade. Natural de Niterói, hoje radicado em Teresópolis.
[Belvedere Bruno é escritora, jornalista e articulista de Literacia ]
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quarta-feira, setembro 01, 2010


Entrevista do Professor Roberto Kahlmeyer-Mertens concedida à escritora e jornalista Belvedere Bruno.


“Conversações com intelectuais fluminenses”:
livro evidencia capítulo da inteligência no estado do Rio de Janeiro


Roberto (Saraiva) Kahlmeyer-Mertens. Nascido em Niterói, em 1972. Professor e ensaísta. Bacharel, Mestre e Doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Leciona filosofia em diversas instituições de ensino superior em nível de graduação e pós-graduação. Membro da Academia Brasileira de Literatura – ABDL, Cenáculo Fluminense de História e Letras, Academia Niteroiense de Letras – ANL. Autor de: Filosofia primeira – Estudos sobre Heidegger e outros autores (2005), Tempo e caminho (2006), Linguagem e método. (2007), Verdade-Metafísica-Poesia (2007), Heidegger & a Educação (2008), Opúsculos (2008), Fenomenologia do haicai (2010), Conversações com intelectuais fluminenses (2010).



Por que chamar o livro de conversações?

Acho mais simpático pensar o livro como um feixe de conversas, ao invés de considerar o que há em seu conteúdo como apenas entrevistas; até porque, o livro foge do formato jornalístico, não possuindo caráter informativo. É um livro de conversas, de conversações que registram traços da formação das personalidades que ali constam, documentando sua interface pública, ideias e engajamentos e, em alguns casos, os resultados de suas pesquisas, temas cuja leitura pode interessar tanto ao leitor leigo quanto aos acadêmicos. Essas conversações foram captadas da maneira o mais espontânea possível. Daí o entrevistado interagir comigo de modo informal e livre. Tal espontaneidade, somada à pluralidade de perfis intelectuais, foi responsável pela estruturação simples do livro, que se absteve de agrupar os entrevistados em categorias ou de fazer classificações. Entendemos que, com isso, obtemos a forma adequada para esta interessante matéria.

O que o motivou a organizar um livro de entrevistas com intelectuais fluminenses?

Esse tipo de publicação é mais comum do que se pensa fora do Brasil. Há alguns anos, o jornal francês Le Monde reuniu entrevistas colhidas durante a década de 1980 e publicou-as em compêndios temáticos. Em nosso caso, o livro surgiu da necessidade de registrar um cenário intelectual em um momento especial para o Estado do Rio, um momento no qual (depois da fusão com o Estado da Guanabara) se volta a perguntar o que significa ser fluminense. Buscamos, então, ter uma imagem da identidade, da inteligência e do que se chamamos “cultura fluminense”. Tal proposta se coadunou a muitos dos pontos do projeto político editorial da Nitpress, o que fez com que seu publisher Luiz Augusto Erthal a “comprasse” sem hesitar. Achamos, assim, que a temática da identidade fluminense seria algo possível de ser colocada a partir da retomada de uma pergunta já feita por muitos, mas que continua sem uma resposta cabal, a pergunta sobre o que significa ser intelectual. 

Em um universo tão variado, por que exatamente os intelectuais?

É verdade, poderíamos ter nos ocupado dos políticos profissionais, dos empresários ou de qualquer outra categoria com representatividade pública. No entanto, buscamos esses que tratamos genericamente por intelectuais por acreditar que eles possam nos fornecer uma imagem mais lúcida do nosso momento sócio-político-cultural. Os intelectuais, no meu entender são aqueles que encabeçam muitas das transformações sociais. Nesses casos, ouvi-los é imprescindível, se posso julgar.

Que entendimento você tem de intelectual?

É um conceito de grande envergadura, e pelo que pude perceber não existe “O intelectual”, mas intelectuais. O que chegou como uma impressão, logo virou certeza por meio da leitura de teóricos que exploraram o tema mais a fundo. Daí, termos Gramsci falando do intelectual engajado, representante de uma classe social; Foucault indicando o intelectual específico, geralmente um erudito que se ocupa de questões mais acadêmicas sem ter militância... Se um perfil, ainda que pálido, pode ser traçado a partir de pontos comuns entre todos esses, diria que intelectual é todo possuidor de habilidades e competências específicas, que normalmente reverte o benefício de seu mister à sociedade, mas não só isso, é também aquele que defende intransigentemente o direito da sociedade de desfrutar desses benefícios. Um intelectual é uma figura sobre a qual recaem grandes responsabilidades: não é um título, mas a aquisição de um rol de tarefas.

Todos os presentes no livro são necessariamente intelectuais? Quer dizer, correspondem a este perfil?

Como disse, existem intelectuais e não “O intelectual”. Talvez apenas uma leitura do livro responda esta pergunta (risos).

Vemos no livro diversos personagens que não são fluminenses de nascimento, como isso se explica?

Isso foi algo que definimos como critério de seleção dos participantes de nosso livro. Entendemos que ao tratarmos de intelectuais não poderíamos nos restringir apenas àqueles nasceram no Estado do Rio de Janeiro. Existem muitos nascidos em outros estados e que, radicados no RJ, desenvolveram, por décadas, trabalhos de grande relevância. É o caso de um Leonardo Boff, de Ciro Flamarion Cardoso, Célia Linhares e, ainda, Israel Pedrosa. Não poderíamos descartar essas contribuições sem que nos pesasse a má consciência de estarmos pecando com um provincianismo. Provincianismo foi um vício contra o qual muito nos acautelamos nesta organização.

O livro possui entrevistas com personalidades que mais que apenas fluminenses já são nomes de representatividade nacional (como os nomes que você lembrou) e com outros que podem ser considerados “obscuros”, isso foi intencional?

Sim. Houve a preocupação em mostrar que a excelência de um trabalho intelectual nem sempre recebe a atenção da mídia. Do mesmo, nem toda atuação intelectual está ligada a graus e titulações. Existe gente que traz relevantes contribuições sociais sem fazer alarde; tem muita gente que faz bom uso das ideias em domínio público e que se mobilizada junto a sua comunidade e que nem por isso é filiada às altas esferas acadêmicas ou desfruta de erudições. Ao entrevistar os célebres e os obscuros, como você diz, pretendemos destacar igualmente o que ambos têm a dizer. Neste caso, pouco importa a idade, sua classe, seu credo, sua etnia, seu sexo ou orientação sexual, é a contribuição cultural à sociedade o determinante.

Mas, ainda assim, muitos intelectuais ficaram de fora.

Certamente. Costumo lamentar que este livro tenha chegado tarde para alguns que partiram cedo. Tinha muita vontade de ter registrado uma entrevista com Alberto Torres, Antônio Callado, Jacy Pacheco, José Cândido de Carvalho, Geraldo Bezerra de Menezes, Antônio Carlos Villaça, Rubens Falcão, Geir Campos, José Eduardo Pizarro Drummond... além de alguns de meus professores queridos: Cláudio Ulpiano, José Américo Motta Pessanha e Fayga Ostrower. Quanto aos vivos, já estou selecionando nomes para dar destaque em um segundo volume do livro.

Quais são suas expectativas para com a obra, depois de lançada?

A de que o livro nos proporcionará um instante feliz... Julgo, que o maior serviço que este livro pode trazer, mais até que a difusão do “fait divers” a qual ele se presta, é fomentar a reflexão e o debate sobre como conjugar identidade, cultura e sociedade de maneira esclarecida.

A obra terá um pré-lançamento agora em 14 de outubro de 2010. Esta premiere deverá acontecer na Câmara Municipal de Niterói. O lançamento, propriamente dito, será na Livraria da Travessa da rua do Ouvidor, no RJ, e tem data estimada para novembro.

 [Belvedere Bruno Colunista de Literacia]
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